segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Registro do I Encontro de Mulheres da Teia de Agroecologia dos Povos

 
“Eu peço a benção à Mãe Terra e ao nosso Pai Tupã!”

“Mulher e Agroecologia: Pra fazer Soberania!”


É pedindo a benção e com um grito coletivo de luta e de união que se iniciou o I Encontro de Mulheres de Teia de Agroecologia dos Povos, no Assentamento Terra Vista, em Arataca (BA). Indígenas, quilombolas, assentadas, juventude urbana e crianças estiveram unidas em dois dias, 21 e 22 de agosto de 2015, para conviver, trocar experiências e dialogar sobre a participação das mulheres na luta pelo direito à terra a partir da Agroecologia. O Encontro também pautou a atuação feminina na IV Jornada de Agroecologia da Bahia, que já está com inscrições abertas.


Em rodas de diálogo e místicas foram levantados temas relacionados diretamente às práticas agroecológicas, em especial aos fazeres e saberes repassados e consolidados pelas mulheres através da oralidade. O encontro foi também um momento de articulação entre as mulheres da Teia dos Povos, pautando importantes encaminhamentos para a atuação feminina na IV Jornada de Agroecologia da Bahia, que será realizada entre os dias 29 de outubro e 01 de novembro de 2015, no Assentamento Terra Vista, com o tema “Terra, Território e Poder”.



Místicas e Oficinas


“Não se seca raiz de quem tem sementes espalhadas para brotar”
(Poesias de Eliane Potiguara)

Entrelaçando os diálogos, o Encontro de Mulheres da Teia foi conduzido em vários momentos pelas místicas, momentos de ritualização e conexão com nossa ancestralidade, força que move mulheres e homens para seguir adiante na luta pela terra. As místicas foram conduzidas pelas mestras indígenas Pataxó, Pataxó Hãhahãe e Tupinambás.

Por entender que discurso sem a prática é prato vazio, realizamos três oficinas na manhã do dia 22, sábado: Horta Agroecológica, Sistemas Agroflorestais e Cacauada, ministradas por assentados do Terra Vista e membros da Teia. “Quando a gente fizer o que a gente fala é que a gente vai comer o que a gente quer”, reforçou a companheira Dora Silva, da Teia dos Povos.

Sobre a prática, o Encontro proporcionou uma nova experiência para os nossos companheiros de luta, que estiveram presentes na cozinha, preparando as refeições do Encontro. Isso mostra que é possível a presença masculina em atividades domésticas antes dogmatizadas como funções preferivelmente femininas. Após o Encontro, percebemos que é necessária a paridade de gênero nesses espaços, missão dada para os próximos encontros da Teia.




 
 
TEMÁTICAS DIALOGADAS


Soberania e Segurança Alimentar

O diálogo em torno da soberania alimentar começou com a conceituação de como a entendemos. A soberania diz respeito ao direito de todos os povos em ter uma alimentação saudável e o conhecimento sobre seus meios de produção, direito esse limitado com a formação do modelo de sociedade capitalista. “A 'dessoberania' surgiu com os resquícios do fim da II Guerra”, lembra a companheira Jéssica Camargo, da Frente Nacional de Lutas (FNL), explicando como as substâncias bélicas foram parar na agricultura e em nossas mesas, a partir do uso de adubos e fertilizantes derivados da guerra e comercializados pela multinacionais.

Tatiana Botelho, do Instituto Cabruca, citou o cruel ciclo de dominação das multinacionais. As mesmas empresas que produzem as sementes transgênicas são as que produzem agrotóxicos e manipulam remédios da indústria farmacêutica. Ou seja, dentro desse sistema ilusório, nos alimentamos de veneno e procuramos o mesmo veneno como antídoto às doenças por ele causadas. Entretanto, a Agroecologia e seus saberes tradicionais vêm como proposta prática e política ao enfrentamento da imposição capitalista. “A Agroecologia nada mais é que um conceito acadêmico para definir o resgate à forma como nossos ancestrais cultivavam a terra”, ressalta Fernanda Tanara, do Núcleo de Estudos e Práticas em Políticas Agrárias - NEPPA.



Sementes

Aniele Silveira, da Teia dos Povos, relatou um breve histórico sobre uma das principais empresas de transgênicos, a Monsanto. Essa multinacional, assim como a Singenta, Bayer, Dupont, Down, entre outras, possuem a patente de dezenas de sementes, impedindo a apropriação por parte das agricultoras e agricultores. A semente transgênica, além de não se reproduzir, é geneticamente enfraquecida para que necessite do uso de aditivos químicos, causando dependência financeira e alimentar, além de gerar impactos ambientais sobre o solo, as matas, as águas, animais e humanos.

Dona Maria Muniz, Pataxó Hãhãhãe, contou sobre o sucesso da reprodução de sementes crioulas em sua aldeia, a partir da troca de sementes realizada na II Jornada de Agroecologia da Bahia. Exemplo claro de que as sementes nativas e a agroecologia fortalecem não só a produção alimentar saudável, mas também a auto-organização das mulheres e a geração de renda. Essa fala lembra a importância de se pautar a criação e o fortalecimento das redes de sementes crioulas dentro dos territórios tradicionais e urbanos de resistência, conectando diferentes realidades de luta e estando presente em espaços de controle. “Devemos estar atentas aos acontecimentos políticos, pois neles há fortes intenções, e também ocupar espaços como as universidades”, ressalta Nádia Acauã, Tupinambá de Olivença.


Saberes Tradicionais

“Se a terra é mãe, é uma mãe doente, estuprada, espancada, cansada e marcada para morrer”. Assim a companheira Nancy Cardoso, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), sensibilizou o debate trazendo o entendimento sobre a opressão que a Mãe Terra vivencia e que é semelhante à opressão que as mulheres sofrem e lutam, juntas, para se libertar. Essa é uma relação importante entre a mulher e a Agroecologia. “Temos que tratar a terra bem, aí está nossa tarefa mística. A gente precisa ir para a política com essa concepção. Queremos ser Mulheres que gozam e sentem o prazer, assim como a Agroecologia é o prazer para a Mãe Terra.”

Os saberes tradicionais e a noção de identidade afirmam o empoderamento das mulheres na Agroecologia, pois elas são guardiãs dos conhecimentos da Terra, como o uso das ervas medicinais, o partejar, etc. Por isso, precisamos entender a tradição oral como conteúdo de conhecimento agroecológico, integrando ele com o dito conhecimento formal. Sobre isso, Dona Maria Muniz comenta: “A Universidade deve compreender as necessidades da gente e os nossos saberes ancestrais. Temos o conhecimento da terra! Nós, indígenas, quilombolas e não indígenas, cuidando da terra juntas, vamos mudar esse país. Temos que dizer como é a vida aos nossos jovens e ensiná-los a fazer o certo”.


“Olê Mariê,
Olê Mariá,
Mulher sai dessa cozinha,
Vem ocupar seu lugar!”


ZINE

Para compartilhar parte do que foi realizado no I Encontro de Mulheres da Teia de Agroecologia dos Povos, foi confeccionado um zine do encontro. Zine é uma publicação artesanal, independente e livre, feita com colagens, ilustrações, escritos, poesias e o que a criatividade for capaz de realizar. Uma comunicação que fortalece a autonomia. O zine do encontro foi produzido por várias mãos femininas e apresenta, resumidamente, uma cobertura do encontro a partir de falas das companheiras que estiveram presente. Cada elo levou uma cópia para suas comunidades, com a missão de copiar e distribuir para mais mulheres e também para os companheiros. Para baixar o PDF e imprimir, clique aqui.



sábado, 15 de agosto de 2015

Encontro para organização de rede de sementes florestais nativas


O Semente Junta a Gente – Encontro para organização de rede de sementes florestais nativas aconteceu nos dias 16 e 17 de Agosto e deu o pontapé inicial para a formação de uma rede que vai interligar os coletores e produtores de sementes e mudas, a princípio da Mata Atlântica e, posteriormente, da Caatinga e Cerrado. Os cerca de 100 presentes na atividade do Projeto Ações Ambientais Sustentáveis acordaram alguns princípios e estratégias da rede e construíram um grupo gestor para a rede no bioma Mata Atlântica.

O objetivo da rede é fomentar a colheita, produção e comercialização de sementes e mudas florestais nativas no estado da Bahia. Com isso, espera-se preparar o setor para a demanda por restauração florestal que deve surgir, como defendeu Murilo Figueiredo, da Secretaria de Meio Ambiente: “É um momento ímpar para os produtores, tendo em vista a previsão de um aumento significativo na demanda de mudas e sementes, por parte das propriedades que tiverem passivos ambientais detectados através da consolidação do Cadastro Estadual Florestal de Imóveis Rurais (Cefir)”.

 

Rede em construção coletiva
 
Para organizar a rede, a proposta foi uma construção coletiva, contando com a ajuda de parceiros que já acumulam alguma experiência nos temas de interesse. Foram realizadas três apresentações tratando das temáticas regularização de viveiros, estrutura de redes de sementes e organização de movimentos sociais em rede. Em seguida, os participantes dividiram-se em grupos de trabalho e construíram estratégias de atuação focando nesses três aspectos.

De Brasília veio a contribuição da Rede de Sementes do Cerrado, trazida por Alba Cordeiro. Ela frisou a necessidade de identificar o mercado e deu exemplos de como a rede pode auxiliar em processos complexos para os produtores, “as redes que conseguem comunicar  a produção e a demanda têm sido bem sucedidas. No nosso caso, entendemos que a rede teria que ser o comercializador devido à dificuldade do pequeno produtor tirar o Renasem”, explica. Um diferencial da Rede do Cerrado é a comercialização de sementes, não só de mudas. Isso só é possível graças à parceria com a Universidade de Brasília, que possui um dos poucos laboratórios no Brasil onde se realizam os testes de germinação exigidos para realizar as vendas.


Lausanne Almeida, do Projeto Arboretum,  falou sobre a regularização dos viveiros de acordo com as exigências do ministério da agricultura, processo simples para os coletores de semente, mas complexo e trabalhoso para os viveiristas que vão comercializar as mudas, “É algo inviável quando se trabalha sozinho”, afirma ela. O projeto Arboretum lida com essa dificuldade disponibilizando um técnico para auxiliar os viveiristas na regularização. Além dessa, outra estratégia traçada pelo grupo de trabalho para a rede recém-criada é pressionar para conseguir a flexibilização dessas exigências, principalmente para viveiros de comunidades tradicionais, indígenas, quilombolas e da agricultura familiar.

Para falar sobre movimentos sociais trabalhando em rede, Joelson Oliveira compartilhou a experiência do assentamento Terra Vista, do MST, na cidade de Arataca. O assentamento totalmente degradado na entrada das famílias, hoje está bastante florestado graças a um intenso processo de restauração ecológica promovido pelos assentados. O Terra Vista já faz parte, integra e constrói a Teia dos Povos, uma rede que além de sementes florestais, trabalha com sementes crioulas. Joelson e o grupo de trabalho defenderam uma intensa troca entre os saberes ancestrais e populares com o saber científico, mais valorizado normalmente: "Para conservar a Mata Atlântica é preciso mudar de atitude! A árvore mais estudada hoje é o eucalipto e isso é uma vergonha para as universidades!”, critica.



Imagens: Juliana Ferreira

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Abertura do Plano Safra 2015/2016


                                 

No dia 13 de agosto, em Salvador-BA, aconteceu a abertura do plano Safra 2015/2016 se tratando de um plano de apoio a agricultura familiar que contava com a participação de diversos órgãos governamentais, não-governamentais, agricultores familiares, marisqueiras, indígenas, estudantes, pescadores, quilombolas, artesãos e mais para apresentação do plano e quais recursos estarão dispostos aos caponeses e camponesas durante o ano de 2015 e 2016.
O assentamento Terra Vista, junto à representação Pataxó, aos grandes parceiros: Instituto Cabruca CIMA e EcoBahia estiveram presentes nesse diálogo somando forças à Teia dos Povos, assim como, divulgando a produção do chocolate, do cacau, em cabruca, dentro da área da Mata Atlântica.                                       

Durante o encontro foi falado sobre a garantia Safra, o selo da agricultura familiar e ainda o lançamento de três grandes e importantes editais do projeto Bahia Produtiva, com apoio a projetos socioambientais, cadeia produtiva da apicultura e meliponicultura, e cadeia produtiva da Bovinocultura de leite.

No encontro o governador do Estado esteve presente no stand do Assentamento, firmando a parceria do Governo do Estado junto à causa do Assentamento Terra Vista, assim como, da Teia dos Povos.

Marcou presença ainda a companheira do Grupo Banco Mundial firmando o mesmo compromisso de apoio e parceria à nossa luta e à nossa causa.
Tivemos a oportunidade de divulgação da IV Jornada de Agroecologia da Bahia, convidando nov@s participantes e construindo parcerias para a mesma, além de convidar ilustres companheiros, companheiras e camaradas de caminhada.



Diga ao povo que avance...
E AVANÇAREMOS!

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Assista ao vídeo da mobilização à favor dos professores PST que fechou a BR-101


Os professores PST pressionam a Secretária de Educação do Estado da Bahia, fechando a BR-101.

Exigimos qualidade na Educação do Campo, e para isso, o mínimo é o pagamento em dia dos proventos dos funcionários. 

O assentamento Terra Vista está de portas abertas para receber o Sec. de Educação do Estado da Bahia, afim de dialogarmos sobre a situação de nossos Educadores e outras demandas para melhorar a Educação no território.






Aos estudantes, funcionários e demais professores do CEEP do Campo - Mílton Santos pedimos que continuem em lutas pois apenas assim conseguiram melhorias para tod@s nós!

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

INTERTEXTO
Bertolt Brecht

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Manifstação exige Educação do Campo de qualidade e fecha BR-101




“Educação do Campo: direito nosso, dever do Estado”, eram as palavras escritas numa faixa que um grupo de manifestantes carregava quando fecharam o trânsito na BR-101 hoje, 3 de agosto de 2015. A mobilização começou por volta das 8:00 no trevo de Arataca e manteve a estrada parada por duas horas. 

Os manifestantes exigiam melhores condições de trabalho e melhoria da Educação do Campo para o Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) do Campo Milton Santos. Localizado no Assentamento Terra Vista, o “Mílton” representa uma grande vitoria do MST, da comunidade assentada e toda região sul da Bahia. Desde sua  fundação, em 2009, tem viabilizado formação e a capacitação de jovens e adultos para intervir no desenvolvimento da região, em sua dimensões econômicas, ambientais e sociais.




Atualmente, o Centro oferece o ensino médio profissionalizante nos cursos de agroecologia, agroindústria, informática, meio ambiente, segurança do trabalho, agro extrativismo e zootecnia para cerca de 1 mil estudantes, que residem nos municípios que integram o Consórcio Intermunicipal da Mata Atlântica (CIMA). O número de estudantes do CEEP do Campo Mílton Santos cresce a cada ano, mas as condições de trabalho tem sido cada vez piores. Além de professores efetivos e REDA, o Centro têm 50% de professores PST, cujos os sálarios são menores que os demais professores.



De acordo com Eva Morais - professora do CEEP do Campo Mílton Santos, “Nós convocamos os estudantes a se juntarem nessa mobilização pois já completou 5 meses que os professores contratados na modalidade Prestação de Serviço Temporário – PST estão sem receber seus proventos. Diante dessa situação decidimos paralisar a BR-101 por duas horas para chamar a atenção da Secretaria de Educação, do Governo Estadual e da sociedade civil como um todo sobre nossa situação.”


Solange Brito – moradora do Assentamento Terra Vista, diretora do CIFF e mãe de dois jovens que estudam no CEEP do Campo Milton Santos, explica que é preciso ter solidariedade com esses trabalhadores, pois eles estão vendendo sua força de trabalho e merecem receber por isso. “Por isso que esta mobilização conta com a presença de moradores do Assentamento Terra Vista e Rio Aliança, estudantes, professores e terceirizados do Centro Integrado Florestan Fernandes (CIFF) e do CEEP do Campo Mílton Santos.

Joelson Ferreira – membro da coordenação do Assentamento Terra Vista, pai de dois jovens que estudam no CEEP do Campo Milton Santos, agradeceu a colaboração dos motoristas que tiveram sua rotina alterada pela manifestação. Ele lembrou ainda que é direito de todos os trabalhadores se manifestarem e lutarem por seus direitos.






quinta-feira, 30 de julho de 2015

Entrevista com seu João “Putaria” Ribeiro


O texto a seguir é uma produção coletiva de estudantes de 12 a 14 anos do Centro Integrado Florestan Fernandes e é dos resultados de uma oficina de comunicação realizada hoje.





 
As turmas do 6º e 7º anos do Centro Integrado Florestan Fernandes realizou hoje uma entrevista com uma das pessoas mais idosas do Assentamento Terra Vista com o objetivo de conhecer a sua trajetória de vivência aqui.

Ele mencionou na entrevista que tem 95 anos de idade e que nasceu em Jequié, na Bahia. Ele vive com a esposa, Dona Rosália e tem 7 filhos. Ele gosta de escutar música boa e é flamenguista.



Ele gosta de morar aqui por causa do rio que divide o assentamento e também porque aqui ele tem a roça dele e a casa onde ele mora há 22 anos.

Para nós estudantes foi muito bom ir conversar com ele porque a gente soube coisas sobre o Seu João que não sabia antes, mesmo já conhecendo ele. Também foi legal porque ele ficou muito alegre com a visita.

Sabe por que ele é chamado de João “Putaria”? É porque quando ele era jovem, e depois de idoso também, ele falava e fala muita besteira! Seu João é resenhista...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

TEIA marca presença na etapa de Itabuna do Fórum Social da UFSB


Durante os dias 24 e 25 de Julho foi realizada a etapa regional do Fórum Social da Universidade Federal do Sul da Bahia – UFSB, no bairro de São Caetano, Itabuna. O evento reuniu docentes, pesquisadores, servidores, estudantes da UFSB e diversos segmentos da sociedade civil. A TEIA de AGROECOLOGIA dos POVOS esteve presente, junto com Pataxó Hã hã hãe, Tupinambá de Olivença, quilombolas, comunidades de terreiro e assentados de reforma agrária.


Grupos culturais como o grupo Bicho Caçador e Volta da Jiboia fizeram a abertura do Fórum Social. Para Naomar Almeida, reitor pro tempore da UFSB, o objetivo do fórum foi promover um espaço de diálogo e escuta dos diferentes setores da sociedade. Para nós da TEIA, o momento foi importante pois estivemos juntos mais uma vez somando forças para lutar por uma educação de qualidade no território.
 
Kaique, da aldeia Caramuru Catarina-Paraguaçu, falou da importância de vir para o Fórum pois pode perceber como a cultura do quilombo têm traços parecidos com sua cultura, “outros lugares também têm cultura, que não é só na aldeia.” O jovem indígena Pataxó Hã hã hãe, afirmou também que em eventos como esse é importante fazer amizade e “ter convivência com as pessoas de outros lugares.”
 
Após a abertura foi explicado sobre o Conselho Estratégico Social da UFSB - uma instância de participação social, por onde as demandas da sociedade podem ultrapassar os muros da Universidade, direcionando suas ações para o desenvolvimento regional. Atualmente, os prefeitos das três cidades onde a UFSB atua têm cadeiras permanentes, bem como a CEPLAC, doadora de um terreno para construção do campus.

  

No período da tarde, cada segmento social se reuniu para dialogar sobre suas demandas. A ideia era escutar as especificidades de cada setor, escolher prioridades de ações e eleger as/os delegadas/os responsáveis por defender as propostas na etapa final, à ser realizada entre 16 e 19 de Setembro, em Porto Seguro. A TEIA esteve presente para apresentar seu projeto de desenvolvimento sócio econômico agroecológico e solidário aos diversos segmentos ali reunidos, à saber: Movimentos Sociais do Campo, Educação Básica, Ensino Superior e Pesquisa, Juventude, Comunidades Afro-brasileiras, Povos Indígenas dentre outros.



A UFSB tem o proposito de ser uma universidade onde 80% dos estudantes serão da região Sul da Bahia. Para realizar este meta, a UFSB esta desenvolvendo a estrategia de implantação de Colégios Universitários (CUNI) em parceria com a Secretaria Estadual da Educação (SEC-Ba) nos municípios com mais de 20 mil habitantes. Já foram implantados 5 CUNIs e o planejamento é implantar mais 28 nos próximos 5 anos.
 

Visando dar seguimento a este processo de expansão, foi realizado no turno da noite uma audiência pública para escutar a sociedade presente sobre os locais de implantação dos CUNIs. Durante este espaço, a TEIA apresentou a necessidade da universidade priorizar as populações das aldeias, dos quilombos e das comunidades rurais na implantação dos próximos colégios universitários. Tendo em vista a conjuntura de amplo fechamento das Escolas no campo, a recusa em priorizar tais populações em suas ações poderá dificultar a chegada dos CUNIs no território.

Durante todo o dia alguns produtos do Assentamento Terra Vista estiverem à venda para todos que participavam do Fórum. Dentre os produtos o chocolate agroecologico do assentamento foi o mais procurado por quem estava de passagem pelo local.



***
  
O segundo dia começou com um painel temático “Desenvolvimento regional e sustentabilidade: águas, Mata Atlântica e empreendedorismo de impacto”, onde Joelson Ferreira apresentou a proposta de desenvolvimento sócio econômico da Teia, que resgata a força do cultivo do cacau cabruca como forma de preservação ambiental de outras especies. Essas especies estão cada vez mais ameaçadas, devido ao desmatamento causado pela pecuária intensiva, “se não fizermos nada o pé do boi pode acabar com toda a riqueza dessa região e causar até uma grande seca aqui no Sul da Bahia”. Ele convocou a todos os presentes para se juntarem numa perspectiva de cuidado da natureza, dos rios, das matas, das florestas e das sementes, que envolve a recuperação de 200 mil ha de Cacau Cabruca e reflorestamento de 200 mil ha através de SAFs.


Ainda durante o painel foi apresentada a proposta da realização de obras de infraestrutura, que apresentam-se como prerrogativa de aumentar o desenvolvimento da região, dentre elas estava o Porto Sul, que servirá de porta de saída para a exportação do minério de ferro das minas no município de Caetité, Bahia. Essa proposta veio vestida de solução para outros problemas como de saúde, educação e violência que os municípios como Itabuna, Ilhéus e Teixeira de Freitas estão enfrentando.

Para a Teia, esses projetos em nada contribuem para a sustentabilidade no território, visto que causam impacto ao meio ambiente promovendo grande desmatamento, precárização do trabalho, além de expulsar as comunidades que tradicionalmente ocupam os locais onde os mega projetos pretendem se instalar.
Quando foram abertas as falas para intervenções, Adalto Tupinambá - morador da aldeia Água Vermelha em Itaju do Colônia, lembrou a todas/os presentes que esta política de exploração do territórios não tem nada de novo. Desde 1833, já havia sido regulamentado que as comunidades que ocupam estes territórios deveriam ser removidas integralmente ou parcialmente. 

Egnaldo França, agente de sáude e membro do Movimento Negro de Itabuna, alertou que “É muito fácil e bonito falar da necessidade de discutir os problemas de saúde e violência em Itabuna por quem está no ar condicionado. É preciso estar lá no dia a dia na periferia para entender quem realmente é vítima. Muitas dessas pessoas são meus parentes, vizinhos e amigos de infância. Quando uma pessoa pega leishmaniose é por que seu pai e seu avô foram vítima de emboscadas, caxixes, exploração e outras formas de opressão que expulsaram-na da terra, tendo como destino as periferias, sem saneamento básico e sem acesso as políticas sócias.”


O Eng.º Agrônomo, Drº Manoel Donato de Almeida ressaltou a necessidade de reconstrução da cultura do cacau em outras bases. “Já fomos um dos maiores produtores de cacau do mundo, mas tudo isso em troca do desmatamento, do assassinato dos povos tradicionais, da devastação da matas ciliares. Temos que dar um grande grito de basta! Repensar em tudo isso e começar de novo, com outras ideias.”

Para Camila, do assentamento Terra Vista, foi importante terem sido apresentadas essas propostas durante o Fórum Social pois, “assim, os inimigos do povos deixam claro qual o projeto deles e nós deixamos claro qual a nossa - nos unir para nos defender e enfrentá-los.”

Daniela Galdino, profª da UNEB e poeta, enriqueceu a discussão ao declamar o poema “Morte do Leiteiro” de Carlos Drummond de Andrade. A partir do poema é possíve estabelecer relação com a criminalização dos movimentos socias, principais atores na transformação da sociedade.

Há pouco leite no país,é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.

Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro.
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto
Com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.

E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,

cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei, 

é tarde para saber.


Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.

Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada. 
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.




Ao final do Fórum Joelson Ferreira, alertou que as expectativas com a chegada da UFSB são muitas, mas seu papel de transformar a realidade no território deve ser disputado nas diversas instância da instituição, no Conselho, nas pesquisas e nos próximos Colégios Universitários. Concluiu relembrando sobre a necessidade de ocupar o latifúndio da educação superior. “Estamos educando os nossos filhos e nossos parentes para não aceitar mais ser escravo ou ter um salário de miséria. Aos antigos latifundiários avisamos: seus dias de perversão estão chegando ao fim. Estamos unidos, quilombolas, indígenas, assentados, acampados e o povo nas favelas e periferias, e vamos nos preparar para a guerra de defesa da Mata Atlântica e da natureza."

Diga ao povo que avance...
Avançaremos!