domingo, 7 de dezembro de 2014

Carta da III Jornada de Agroecologia da Bahia

"Pelos caminhos da América, no centro do continente, marcham punhados de gente, com a vitória na mão. Nos mandam sonhos, cantigas, em nome da liberdade, com o fuzil da verdade, combatem firme o dragão. 

Pelos caminhos da América há um índio tocando flauta, recusando a velha pauta que o sistema lhe impôs. No violão um menino e um negro tocam tambores, Há sobre a mesa umas flores pra festa que vem depois."

Zé Vicente - “Pelos Caminhos da América


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Elas e eles, mais de mil e duzentos, chegaram de todas as partes chocalhando seus maracás, tocando seus tambores e atabaques, percutindo seus berimbaus e caxixis, dedilhando seus violões e acordeons e soprando suas flautas e gaitas. Chegaram com ginga, com cores, com alegria, trouxeram suas sementes sagradas e seus saberes ancestrais. Nos seus alforjes, sonhos, rebeldias e esperanças de um novo mundo possível para TOD@S. Na primeira semana de dezembro de 2014, entre 4 e 7, aconteceu nosso Grande Encontro no Assentamento Terra Vista, em Arataca, sul da Bahia, com o tema: “Sementes, ciência e tecnologia agroecológica, para mudar a realidade das comunidades no campo e na cidade”.

Foram quatro dias intensos de partilhas, reflexões, práticas, celebrações e uma mística que envolvia a tod@s. Com oficinas temáticas, mini-cursos, mesas redondas, momentos lúdicos, conversas ao pé da fogueira, ocupamos os diversos “cantos” do assentamento. Junto a isso, a feira troca-troca de sementes crioulas, os banhos no Rio Aliança e as diversas reuniões políticas dos movimentos aqui presentes, levaram-nos as seguintes constatações:

* A certeza de que a caminhada realizada desde a I Jornada no final de 2012, com a consolidação da Teia de Agroecologia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica, deve continuar.  A Teia atuará de forma permanente enquanto uma rede que reconstrói a solidariedade entre as comunidades tradicionais, movimentos do campo e da cidade, ampliando assim o sentido da agroecologia, tão distorcida pelo excesso acadêmico e teórico e de tão pouca prática. Devemos desconstruir o tecnicismo perigoso, para defender uma agroecologia que une os povos e saberes, para garantir saúde dos nossos alimentos, solos e águas, das nossas relações sociais, da nossa identidade cultural, espiritual e ancestral. Como vimos fortemente nesta III Jornada, nos comprometemos na luta pela preservação e garantia de nossas sementes - “Patrimônio genético dos povos e da humanidade”.

* Assim como na II Jornada, percebemos e reafirmamos o compromisso de consolidar uma saúde de boa qualidade, diferenciada e autônoma, que reafirme nossos modos de vida ancestrais e nossa forma de construir política e militância. Isso só é possível a partir da luta pela garantia dos territórios, de alimentos saudáveis e da vida de nosso povo e lideranças. A agroecologia, então, é também uma forma de enfrentamento do sistema opressor e a Teia se propõe a conduzir ações solidárias diretas em defesa desses objetivos. Assim, nossa luta segue o caminho irrestrito da defesa da terra e da construção de uma soberania popular que só pode ser conquistada a partir de nosso suor.

* Exigimos a democratização da terra, a garantia dos territórios dos povos, a desintrusão e regularização imediatas dos territórios indígenas e quilombolas, além da reforma do solo urbano. Repudiamos veementemente os ataques dos ruralistas, com a conivência do Estado Brasileiro, contra os direitos duramente conquistados pelos povos do campo. Por isso, dizemos NÃO às propostas de Emendas Constitucionais (PECs), Projetos de Leis (PLs) e Portarias Ministeriais que atacam e tentam tirar direitos já conquistados. Todos esses instrumentos buscam inviabilizar e impedir o reconhecimento e a demarcação das terras dos povos tradicionais; reabrir e rever procedimentos de demarcação de terras indígenas já finalizados; facilitar a invasão, exploração e mercantilização dos territórios sagrados dos povos das florestas. Continuaremos numa luta constante contra todos estes instrumentos jurídicos e legislativos que tentam deslegitimar as lutas e retirar os direitos constitucionais destas populações.

* Rechaçamos as propostas dos serviços ambientais no contexto da economia verde, incluindo seu maior expoente, o REDD+. Isso continuará sendo uma parte central da nossa luta contra o capitalismo e as indústrias extrativas, mineradoras, assim como outras que se alinham ao capitalismo espoliador e destruidor da natureza e de seus povos. Reafirmamos o compromisso de nos organizarmos pela defesa e autonomia dos nossos territórios, das populações que vivem, dependem e são parte das florestas, pela defesa da Mãe Terra. Basta de projetos espoliadores! Não aos serviços ambientais! Lutar contra REDD+ também é combater o capitalismo!

* Reafirmamos que lutar não é crime. Não à criminalização e extermínio dos povos que defendem seus territórios! Queremos um basta imediato no processo de criminalização das lutas e das lideranças.

* Exigimos que os governos municipais, estaduais e o governo federal cumpram com suas obrigações constitucionais e garantam os nossos direitos. Que possamos ter políticas públicas que, verdadeiramente, atendam e respeitem as nossas necessidades e  especificidades. Isto não é um favor, é um direito!

* Invocamos a proteção dos nossos encantados, os seres de luz, para continuarmos lutando contra os projetos de morte, que em nome do dito “progresso”, conhecido como agronegócio e hidronegócio, ataca e agride nossas comunidades, desrespeita  identidades culturais, ferem a Mãe Natureza e seus filhos e filhas. Lutaremos sempre por uma educação descolonial, não patriarcal, antirracista e libertadora, que nos leve a concretizar o nosso Bem Viver.

* Percebemos a necessidade e nos comprometemos em aperfeiçoar a prática da agroecologia nos nossos territórios, articulando saberes ancestrais com novos conhecimentos, usando tecnologias e formação política para o empoderamento popular. Nos comprometemos com a ampliação dos nossos bancos de sementes e viveiros de mudas, com o manejo e uso da agroecologia e biodiversidade em SAF’s (Sistemas Agro Florestais). Fortaleceremos modelos comunitários de produção, sem o uso de venenos e construindo uma grande Teia de tecnologias sociais, onde a camponesa e o camponês, com seus saberes tradicionais, são fundamentais para garantir a soberania dos povos em suas terras.

* Firmamos nossa atuação com as diferentes gerações e nos comprometemos com a educação para a rebeldia e desobediência; com a formação política e vivências comunitárias para nossas crianças e jovens; e com o enfrentamento das opressões contra as mulheres, a população negra, indígena e LGBT, no campo e nas periferias das cidades.

* As mulheres da Teia reafirmam a necessidade da consolidação de um modo de atuação que garanta a organização autônoma de seus espaços, fortalecendo o enfrentamento da opressão de gênero no campo e na cidade.

* A Teia dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica sente a necessidade e a importância de articular com outros povos, por isso se faz necessário a vinculação com a Via Campesina, agregando nossas ações aos povos do mundo e colaborando com o avanço da luta no estado da Bahia, tão fragmentada por disputas mesquinhas, quase sempre conduzidas pelas disputas partidárias.

* Nos comprometemos em continuar a nossa jornada unid@s, partilhando os nossos saberes, construindo coletivamente nossos sonhos, protegendo as nossas sementes, organizando em mutirão as nossas lutas, exigindo com responsabilidade e de forma propositiva os nossos direitos, transformando os nossos espaços em territórios sagrados, semeando sementes de esperança para colhermos frutos de vida e plenitude, retirando e impedindo o uso de venenos e agrotóxicos não só da terra, mas de nossa convivência, para podermos saborear num futuro bem próximo um chocolate amargo-doce, resultado de uma corrente de diferentes elos unidos e entrelaçados por um único ideal: O DE AVANÇAR! DIGA AO POVO QUE AVANCE... AVANÇAREMOS!

É preciso resistir para EXISTIR!


Assentamento Terra Vista - Arataca (BA), 07 de dezembro de 2014

Reflexões da mesa "Agroecologia e Governança''


Deyse

''Não podemos deixar nada nos separar. A agenda de luta da Teia é uma agenda para a vida inteira."


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Sayô Adinkra

“As políticas públicas são tudo aquilo que o governo decide fazer, ou não, a partir de demandas da sociedade. Pode existir política pública que o governo ainda não intervem. Existe a política pública a nível macro, que é feita pelo governo, mas existe também uma multiatorialidade nessa construção, que não parte do governo, é o caso dos movimentos sociais... Estar na Jornada é alimentar nossa capacidade de avançar!''


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Joelson Ferreira

“Há 26 anos no MST traz em sua fala o ideal que motiva a luta, a Revolução Brasileira, e convoca todos os guerreiros e guerreiras que há séculos lutam pela liberdade, os caciques, Zumbi, Dandara, Ganga Zumba. É preciso juntar os segmentos que compõem a Teia em uma pauta única, e também garantir soberania alimentar, para lutarmos de barriga cheia... O Brasil tem que assumir a responsabilidade da revolução, que já é mundial, e derrubar o capitalismo, não há outra alternativa. É chegada a hora de juntar os guerreiros e as guerreiras.”


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Adélia, reitora da UESC, fala da aproximação da universidade em prol dos movimentos sociais e do campo, citando as turmas formadas na especialização em Agroecologia e todo um conjunto de ações que reconhece a democratização do acesso à universidade, como a reserva de vagas.


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Homenagem das mulheres da Teia em apoio à Cacica Maria Muniz, que passa atualmente por processo judicial.


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Painel de Semente produzido durante a Jornada com elementos dos povos que compõem a Teia.


Mística Final



 


Curta-Documentário Semente Paraíso

Confira o curta-documentário Semente Paraíso, produção audiovisual sobre o trabalho de agricultura urbana do MSTB (Movimento dos Sem Teto da Bahia), entre dezembro de 2013 e agosto de 2014, em Salvador (BA). O trabalho foi uma parceria entre CEAS, NEPPA e a Brigada de Audiovisual dos Povos.
                                   
                                       Semente Paraíso.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Reflexões da mesa "Agroecologia, educação e luta de classe"

Ritual com toré e tabaco com Cacique Nailton e Dona Maria

Mística com os povos de quilombo encenando o histórico de
opressão e libertação do povo negro no Brasil
  
MESA

Sayô Adinkra
  
“Como podemos construir um movimento agroecológico que perceba que a luta pelo território não é só no campo? Que também precisamos lutar pela dignidade nos territórios urbanos de periferia, para que eles comunguem com a defesa do território rural.” 



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Cacique Babau

“Morra em pé, mas não morra ajoelhado. Enquanto tiver um tupinambá de pé, nós vamos lutar, pois os que recuaram morreram.”

“A questão agroecológica é algo que nós indígenas sempre 'viveu'. Até os portugueses chegarem a gente vivia uma relação íntima e harmônica com a natureza. Quando víamos que um lugar estava saturado pelo povoamento, saíamos para outro espaço para deixar o lugar onde estávamos se recuperar. Depois, começamos a cultivar plantas para melhorar a rotatividade e respeitar a Mãe Terra. Os portugueses que chegaram tentaram forçar nossa rendição e a perda dos nossos costumes.”

“A educação de hoje é uma lavagem cerebral para que ninguém se sinta índio, negro e brasileiro. Eu não aceito essa educação perpetuada com discriminação e destruição. A Universidade tem que ser tomada e dada a quem sabe o que é educação, a ensinar o que é nosso.” 



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Ademar Bogo

“Classe é uma construção coletiva."

"A vontade é uma força que mora dentro de cada coisa, viva ou morta. Vontade do conhecimento, da consciência. Ninguém tem vontade de desaprender.”

“Existem três questões importantes para a luta da Agroecologia: não se desligar do conflito, da educação e da nossa associação enquanto humanos.”

Zines coletivos produzidos na III Jornada

Durante o segundo dia de III Jornada, foi realizada uma oficina sobre Zines e Comunicação Livre. Os zines são publicações artesanais e independentes, de livre reprodução, bastante usadas pelo movimento punk e movimentos sociais pelo mundo. É uma forma barata, autônoma e eficaz de compartilhar informações. Pela tradição, quem recebe um zine pode e tem a missão de xerocar, reproduzir e passar adiante essa ideia de multiplicar a comunicação livre. Importante também para a autonomia é a ideia de que o zine pode ser feito por qualquer pessoa. Não precisa ser especialista em design, desenho, texto ou usar programas de computador. A linguagem e o modo de fazer são livres. Você pode usar colagens, poesias, frases soltas e curtas, ou também textos longos. Você escolhe, você faz do seu jeito!

Na oficina realizada na Jornada, foram produzidos três zines: A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas; A Jornada de Agroecologia; e Sementes Crioulas. Baixe, reproduza e passe adiante.

Todos os zine estão disponíveis para baixar no Baobáxia.


VERSÕES DIRETA PARA BAIXAR

- Sementes Crioulas (Frente)
- Sementes Crioulas (Verso)
- A Jornada de Agroecologia (Frente)
- A Jornada de Agroecologia (Verso)
-  A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas (Capa e Verso)
A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas (Pag. 2 e 7)
A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas (Pag. 4 e 5)
A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas (Pagina 3 e 6)




VERSÕES PARA VISUALIZAÇÃO


  A Questão de Gênero em Comunidades Tradicionais e Camponesas 







A Jornada de Agroecologia da Bahia






Sementes Crioulas




Reflexões do 2º dia de Jornada

A mesa do segundo dia de III Jornada, realizada na sexta-feira (05/12), teve como tema Sementes, ciência e tecnologia para mudar a realidade das comunidades no campo e na cidade. As falas que embasaram o diálogo foram da Cacica Maria Muniz (Pataxó rã rã rãe), de Joelson Ferreira (Assentamento Terra Vista) e da professora Maria Aparecida (UFBA). À tarde, a Jornada seguiu com as oficinas, mini-cursos, feira de economia solidária e a 1ª Troca Troca de Sementes Crioulas. À noite foi voltada às celebrações culturais entre todos os povos presentes.




Mesa

A Cacica Maria inicia a mesa apresentando o livro que está em construção com mulheres indígenas de sua comunidade. Com a frase “semear cantando”, conta experiências sobre a produção em mutirão que ocorreu em seu território, integrando indígenas, assentados e quilombolas, trazendo a percepção da terra como símbolo de fertilidade e do trabalho coletivo em ritual, com cantorias tradicionais como torés. Em seguida, convoca a juventude para lutar “ombro a ombro” com o povo, refletindo sobre ideologias de desunião e sobre o mau uso de tecnologias que nos afastam da vivência. Finaliza sua fala com cânticos de força. 

A professora Maria Aparecida, da UFBA, contou a lenda do surgimento da agricultura a partir das mulheres, que destrincha a trajetória histórica das sementes como base da humanidade: “As sementes tem material genético, são a essência da vida, ou seja, são embriões”. Fez um breve histórico sobre a Revolução Verde, que disseminou a produção em massa de alimentos e agrotóxicos. Em contraponto, comentou sobre o surgimento do princípio da Agroecologia, nos anos 70. Apontou a agroecologia e as sementes crioulas como caminho para a efetividade da soberania alimentar: “Não se pode utilizar 100% das sementes. É preciso manejo sustentável, guardar uma parte para as produções futuras”. 

Joelson Ferreira, do Assentamento Terra Vista, apresentou o trabalho de uma cooperativa do MST no Rio Grande do Sul, chamada Bionatur, que produz sementes orgânicas para comercialização. A partir dessa experiência, lembrou que as sementes não são patrimônio das empresas que buscam controlar a nossa produção de alimentos, como a Monsanto e a Bayer. “Estamos com a riqueza nas mãos, agora é preciso cuidar delas”, indica Joelson ao lembrar da importância das trocas de sementes para a manutenção da produção e do cuidado com a terra, criando condições para chegarmos a soberania do povo. 

Joelson lembrou que as sementes modificadas são dependentes de veneno e os alimentos proveniente delas agem da mesma forma no nosso organismo, gerando doenças. Ressaltou que as mulheres sempre foram as guardiãs das sementes crioulas e sugere nossa tarefa: “Que cada um e cada uma se transforme em plantadores, cuidadores e semeadores de sementes. Se não tiver espaço para a produção, doe para alguém continuar o trabalho. Para isso, é preciso primeiramente acabar com a capitalismo e conscientizar o povo das cidades sobre a necessidade de voltar à terra, evitando que nosso povo morra nas periferias”. 

Ao final, Joélson convida o Mestre TC para explicar o significado do Baobá como árvore sagrada e ancestral no território africano. TC complementa indicando a necessidade de compreendermos que nós, seres humanos, semeamos valores junto com as sementes, porque também somos patrimônio da terra. “Precisamos ser boas sementes, tendo a generosidade como caminho”.












sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Diálogos dão início à 3ª Jornada


A III Jornada de Agroecologia da Bahia começou nessa quinta-feira, dia 4. Aos poucos, mais assentados, quilombolas, indígenas, estudantes e movimentos sociais chegam ao Assentamento Terra Vista e se unem às atividades que seguem até o domingo, 7 de dezembro. O primeiro dia de evento teve como sustentação o acolhimento e o diálogo entre os diversos elos que compõem a Teia Agroecológica dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica. 

 

A Mística de Abertura abriu com o histórico da Jornada e da Teia, que inclui, desde 2012, vários trechos em comunidades tradicionais do Sul da Bahia, mobilizações com os tupinambás e a formação da Brigada Audiovisual. A mística ressaltou também a importância do movimento na luta pela liberdade das nossas sementes e da terra contra as grandes empresas do agronegócio. Após a mística, um representante de cada elo da Teia deu a saudação para o início da Jornada.



Joelson Ferreira, do Assentamento Terra Vista, trouxe para o debate uma posição clara para a realidade dos movimentos sociais no Brasil: “O país está dividido, todo mundo viu com as eleições desse ano. A burguesia sabe bem o seu lado. E é bom a gente ver que política tem lado. O nosso é a Agroecologia. Agroecologia é ciência, movimento e política”. 



Mesa de Abertura 

A cacique Maria Muniz (pataxó hã hã hãe) abriu a mesa de abertura com seus cânticos e torés de força. Com o tema Agroecologia, ciência, movimento e práticas para a transformação da sociedade, Fernanda, do NEPPA, mediou a mesa que iniciou com fala do Cacique Babau, conclamando a coletividade: 

“Se não abrirem a porta, tupinambá vai arrombar. Hoje estamos guerreando para retomar nossas terras e viver. Mas temos um problema no Brasil que são as lutas isoladas. A Teia pode ser uma oportunidade de unir os movimentos em prol de uma luta unificada. Se recebemos boas notícias e voltamos para casa, estamos perdidos. A bancada ruralista aumentou ainda mais e a Dilma criou leis muito ruins, permitindo que o exército nos persiga. Ou a gente luta junto ou eles vão votar a PEC 215 e todas as outras que prejudicam o povo.” 

Babau também questionou o modelo de educação das universidades que reproduzem a formação de mão-de-obra e ressaltou a educação como estratégia de luta. Falou ainda da urgência dos indígenas ocuparem lugares políticos de poder, pois estes, desde a constituição imperialista e da colonização do Brasil, são restritos. A própria FUNAI não permite que um indígena ocupe a sua presidência: “Precisamos de uma estratégia de transformação e ela tem que partir de nós”, ressaltou o cacique.


O argentino Pássaro, representante da Casa da Economia Solidária de Serra Grande, falou sobre a visão que os demais países da América Latina tem sobre o Brasil e de como nosso país é um território de rica biodiversidade ameaçada por empresas estrangeiras: “O Brasil representa uma liderança para a América Latina e precisa assumir essa responsabilidade”. Pássaro descreveu ainda experiências de outros países em prol da autonomia econômica e da libertação de editais de grandes empresas, como o modelo agroflorestal boliviano de produção familiar. 

Quenia Barreto comentou sobre a expansão, consolidação e diversidade de povos que integram a Teia Agroecológica dos Povos da Cabruca e da Mata Atlântica na luta contra o sistema opressor: “É importante linkar o que fazemos com a espiritualidade”, concluiu. Após as falas, foram abertas as sessões de perguntas e debates. 

O fim do primeiro dia de Jornada terminou com celebração, samba de roda e cantos na fogueira. Assim, abrimos oficialmente e devidamente a III Jornada de Agroecologia da Bahia!